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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Quebra de barreiras

Na semana em que o Mundo foi notícia pela tomada de posse do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, o Qatar deu um enorme passo para a quebra de uma barreira: o estatuto da mulher.

No próximo mês, de 8 a 10 de Fevereiro, realiza-se em território qatari a Ladies Tour of Qatar, prova de ciclismo que reúne 15 equipas de cinco continentes diferentes. A medida é vista com bons olhos pelo panorama ciclista internacional e encarado como uma prova inequívoca da vontade dos responsáveis de abrir horizontes ao desporto feminino num país onde as clivagens de género são ainda bastante vingadas.

Segundo Christian Prudhomme, director do Tour, "este é um verdadeiro gesto político". Já o xeique Khalid Bin Ali Abdulla Al Thani referiu, durante a apresentação da prova realizada hoje em Paris, que "é preciso dar lugar às mulheres" e que a iniciativa pretende "desenvolver o desporto feminino no Qatar, pouco a pouco".

Contudo, apesar do "verdadeiro impulso", nas palavras do presidente da federação qatari de ciclismo, a prova não contará com qualquer concorrente qatari ou da área do Golfo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Homens de Asas I

Na história do desporto, são muitos os atletas que ganharam à alcunha de voadores, dadas as excelentes capacidades que dispunham, não necessariamente de velocidade pura, mas em provas cronometradas. O epíteto de "algo voador" tornou-se um lugar-comum, mas talvez não haja história tão alucinante como a do escocês Graeme Obree.

O nome poderá não esclarecer a maior parte dos leitores, pelo que alguns poderão pensar que se notabilizou numa modalidade pouco mediatizada e no passado. Puro desengano. Obree, reconhecido como "O Escocês Voador" bateu o recorde da hora em ciclismo em Julho de 1993.

No entanto, a história de Obree não se remete apenas ao feito alcançado e ao cognome apelativo, mas também à história de vida e à forma como o conseguiu alcançar. Para isso, basta dizer que a bicicleta que o levou ao recorde horário foi feita por ele. Surpreendido? Há melhor. Entre as peças utilizadas estavam materiais de uma máquina de lavar.

A carreira de Obree foi marcada por acontecimentos invulgares. Os problemas familiares, com várias mortes e suicídios, levaram-no inclusivamente a tentar colocar termo à vida, por duas vezes, ambas sem sucesso. Numa das primeiras provas em que participou, mostrou-se tão perdido que julgou que tinha acabado 100 metros antes da linha de chegada, induzido em erro pela linha de partida.

Segundo a sua biografia, foi a desastrosa gestão de vida que o levou a tentar quebrar o recorde da hora, que pertencia há nove anos a Francesco Moser. Para Obree, a explicação era simples: "O recorde fascina-me desde que o Moser o conseguiu. É o derradeiro teste, um homem numa pista contra o relógio. Pessoalmente, não pensei que iria 'tentar' batê-lo, apenas que o iria "mesmo" bater".

Com uma original bicicleta, feita à medida para não criar situações difíceis durante a performance, o Escocês Voador tentou o objectivo pela primeira vez em Hamar, na Noruega, mas ficou a quase um quilómetro de Moser. Como tinha reservado o recinto por 24 horas, fez questão de o voltar a tentar logo na manhã seguinte. Os métodos utilizados por Obree eram relatados desta forma por um jornalista: "Obree optou pela medida invulgar de beber vários litros de água seguidos de forma a ter que se levantar várias vezes durante a noite. Sempre que o fazia, alongava os músculos. Terá sido uma perda de tempo?"

Após o recorde, Obree explicou a estratégia. "Foi o Butch Cassidy (famoso ladrão de comboios) em termos de coragem. Não queria pessimismos. Sabia para o que ia e pedi apenas que me deixassem fazê-lo, Foi essa a diferença, o estado mental. No dia antes tinha sido um rato... agora sou um leão".

Numa época em que a velocidade numa bicicleta estava a ser bastante valorizada, o também britânico Chris Boardman superou novamente o recorde na semana seguinte. Obree não ficou contente e demonstrou mais uma vez que podia ser ainda mais rápido. Foi a 27 de Abril de 1994, precisamente na mesma pista, em Bordéus, que tinha garantido o novo máximo a Boardman.

A capacidade e feitos do escocês levaram-no a assinar contrato com uma equipa profissional, mas foi sol de pouca dura. Razão? Faltou a uma reunião de equipa e foi despedido por "falta de profissionalismo".

Em 2006, Obree analisou o sucedido bem como os escândalos sucessivos de doping. "Continua a sentir que fui roubado. Assinei para participar no prólogo em 1995, mas fizeram-me ver que só o faria se tomasse drogas. Disse que não, nem pensar, e mandaram-me embora. 11 anos depois, estava ali, a ver os ciclistas a passar e a sentir sensações estranhas. Sinto que fui roubado por muitos daqueles safados que se dopam. Também detesto as pessoas que pensam que todos os que alcançaram alguma coisa na vida, fizeram-no porque se doparam".

E para encerrar todas as dúvidas, Obree é peremptório. "Estou disposto ao teste do polígrafo se insinuarem isso alguma vez".

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Política desportiva

O que têm em comum Fidel Castro, Barack Obama, Vladimir Putin, José Sócrates, George W. Bush, Evo Morales e Hu Jintao além da política? Na verdade, todos eles demonstraram no passado, ou continuam a demonstrar, atracção pelo desporto.

Em Portugal, o primeiro-ministro José Sócrates é conhecido pelos hábitos de corrida, que o levaram inclusivamente a percorrer a Praça Vermelha, em Moscovo, sob forte escolta policial. Ainda assim, Sócrates confirma apenas uma tendência clara.

Fidel Castro, o antigo Presidente cubano, notabilizou-se no desporto durante a vida estudantil, chegando mesmo a ser galardoado com o prémio de melhor atleta do liceu e, aos 21 anos, foi o lançador da equipa de basebol.

Do outro lado do Mundo, o Presidente chinês Hu Jintao demonstrou na promoção dos Jogos Olímpicos de Pequim as capacidades, quase que inatas no país, para praticar ténis de mesa.

União. Os ideais políticos opostos são esquecidos quando se entra em campo. Neste sentido, um comentador de futebol zambiano, Dennis Liwewe, afirma no documentário “Lusaka Sunrise” de Silas Hagerty, que “não é fácil juntar 73 tribos diferentes que falam literalmente 73 dialectos diferentes num só grupo e o futebol desempenha um papel fundamental para garantir esta união”.

A ideia de Liwewe é confirmada internacionalmente. O desporto não é comum a apenas uma facção política, mas tem o condão de reunir várias. Nos Estados Unidos, o antigo e o actual Presidente representam partidos distintos, mas unem-se através do desporto. No passado, o republicano Bush teve um papel activo na gestão da equipa de basebol Texas Rangers, enquanto o democrata Barack Obama é um assíduo praticante de basquetebol.

Já Vladimir Putin, actual primeiro-ministro russo, ostenta no currículo o título de campeão de São Petersburgo no judo, sendo actualmente o presidente do clube onde aprendeu a modalidade enquanto jovem.

Futebol. Na política existe também quem gostasse de seguir as pisadas de Cristiano Ronaldo. Nestas quatro linhas, destaque para o Presidente boliviano Evo Morales, que aos 47 anos continua a jogar e recentemente teve papel activo na luta contra a FIFA para demonstrar que não há riscos de jogar em altitude.

A história tem também casos de atletas que tentam enveredar pela política, mas o sem sucesso. Em 2005, George Weah perdeu a corrida para as eleições presidenciais da Libéria.

Mais a sério. O actual líder da monarquia espanhola, o rei Don Juan Carlos, competiu na classe Dragão, em vela,mas ficou fora dos lugares de medalha. Anders Fogh Rasmussen, primeiro-ministro dinamarquês, já subiu o AlpeD’Huez na companhia do antigo ciclista Bjarne Riis.