terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Homens de Asas I

Na história do desporto, são muitos os atletas que ganharam à alcunha de voadores, dadas as excelentes capacidades que dispunham, não necessariamente de velocidade pura, mas em provas cronometradas. O epíteto de "algo voador" tornou-se um lugar-comum, mas talvez não haja história tão alucinante como a do escocês Graeme Obree.

O nome poderá não esclarecer a maior parte dos leitores, pelo que alguns poderão pensar que se notabilizou numa modalidade pouco mediatizada e no passado. Puro desengano. Obree, reconhecido como "O Escocês Voador" bateu o recorde da hora em ciclismo em Julho de 1993.

No entanto, a história de Obree não se remete apenas ao feito alcançado e ao cognome apelativo, mas também à história de vida e à forma como o conseguiu alcançar. Para isso, basta dizer que a bicicleta que o levou ao recorde horário foi feita por ele. Surpreendido? Há melhor. Entre as peças utilizadas estavam materiais de uma máquina de lavar.

A carreira de Obree foi marcada por acontecimentos invulgares. Os problemas familiares, com várias mortes e suicídios, levaram-no inclusivamente a tentar colocar termo à vida, por duas vezes, ambas sem sucesso. Numa das primeiras provas em que participou, mostrou-se tão perdido que julgou que tinha acabado 100 metros antes da linha de chegada, induzido em erro pela linha de partida.

Segundo a sua biografia, foi a desastrosa gestão de vida que o levou a tentar quebrar o recorde da hora, que pertencia há nove anos a Francesco Moser. Para Obree, a explicação era simples: "O recorde fascina-me desde que o Moser o conseguiu. É o derradeiro teste, um homem numa pista contra o relógio. Pessoalmente, não pensei que iria 'tentar' batê-lo, apenas que o iria "mesmo" bater".

Com uma original bicicleta, feita à medida para não criar situações difíceis durante a performance, o Escocês Voador tentou o objectivo pela primeira vez em Hamar, na Noruega, mas ficou a quase um quilómetro de Moser. Como tinha reservado o recinto por 24 horas, fez questão de o voltar a tentar logo na manhã seguinte. Os métodos utilizados por Obree eram relatados desta forma por um jornalista: "Obree optou pela medida invulgar de beber vários litros de água seguidos de forma a ter que se levantar várias vezes durante a noite. Sempre que o fazia, alongava os músculos. Terá sido uma perda de tempo?"

Após o recorde, Obree explicou a estratégia. "Foi o Butch Cassidy (famoso ladrão de comboios) em termos de coragem. Não queria pessimismos. Sabia para o que ia e pedi apenas que me deixassem fazê-lo, Foi essa a diferença, o estado mental. No dia antes tinha sido um rato... agora sou um leão".

Numa época em que a velocidade numa bicicleta estava a ser bastante valorizada, o também britânico Chris Boardman superou novamente o recorde na semana seguinte. Obree não ficou contente e demonstrou mais uma vez que podia ser ainda mais rápido. Foi a 27 de Abril de 1994, precisamente na mesma pista, em Bordéus, que tinha garantido o novo máximo a Boardman.

A capacidade e feitos do escocês levaram-no a assinar contrato com uma equipa profissional, mas foi sol de pouca dura. Razão? Faltou a uma reunião de equipa e foi despedido por "falta de profissionalismo".

Em 2006, Obree analisou o sucedido bem como os escândalos sucessivos de doping. "Continua a sentir que fui roubado. Assinei para participar no prólogo em 1995, mas fizeram-me ver que só o faria se tomasse drogas. Disse que não, nem pensar, e mandaram-me embora. 11 anos depois, estava ali, a ver os ciclistas a passar e a sentir sensações estranhas. Sinto que fui roubado por muitos daqueles safados que se dopam. Também detesto as pessoas que pensam que todos os que alcançaram alguma coisa na vida, fizeram-no porque se doparam".

E para encerrar todas as dúvidas, Obree é peremptório. "Estou disposto ao teste do polígrafo se insinuarem isso alguma vez".

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

À conquista do "Tecto do Mundo"

Pierre Coubertin optou por destacar os grandes objectivos do Homem como citius, altius e fortius, mas a verdade é que os limites do ser humano nunca se ficaram por esses três aspectos. Desde que se conhece, o Homem tentou sempre chegar mais longe, mais alto, mais fundo e melhor.

Desde conseguir voar à chegada à Lua ou a Marte, os grandes génios ignoraram sempre as barreiras e obstáculos do ser comum e tentaram fazer história com as próprias mãos e pés. No início da década de 50 do século passado, a vontade de chegar ao topo do Evereste fixou as mentes de inúmeros alpinistas.

Todos o queriam, mas apenas um é conhecido por ter sido o primeiro a fazê-lo. Ele é o neozelandês Edmund Hillary, posteriormente elevado a "Sir". Nascido em 1919, Edmund cresceu em Auckland, uma das principais cidades do país, e começou a interessar-se pela modalidade logo em "casa". Dados os perigos do "Tecto do Mundo" que provocaram no passado e continuam hoje a provocar muitas mortes, Edmund Hillary embarcou em várias viagens de reconhecimento do local, tentando criar uma relação de familiaridade com a montanha, conhecer os pontos fracos, as vulnerabilidades e os principais perigos.

Finalmente, em 1953, Edmund Hillary partiu à conquista do cume. Originalmente composta por mais elementos, a expedição terminou com apenas dois alpinistas a completar o objectivo. Além do famoso Hillary, também Tenzing Norgay, um útil nepalês com conhecimento do terreno, conseguiu alcançar o objectivo a 29 de Maio de 1953.

E porquê o título de cavaleiro? O anúncio da chegada ao topo, integrado numa expedição organizada por britânicos, ocorreu na véspera da coroação de Isabel II. Num período difícil, agastado pela crise e pelo rescaldo da guerra, o conhecimento de feito de tal ordem foi visto como um fogacho de esperança e confiança para o futuro. De certa forma, como o efeito que a conquista do topo de Iwo Jima teve para os norte-americanos.

A partir daí, Edmund Hillary dedicou a vida à conquista de novos cumes e objectivos longínquos, como o Polo Sul. Em 1975, a vida do antigo apicultor (guardava abelhas no início da vida) conheceu um forte revés, quando mulher e filha morreram... nas alturas, num acidente de avião.

No próximo domingo, 11 de Janeiro, completa-se o primeiro ano após a morte de Sir Edmund Hillary, o primeiro de muitos a escalar o Evereste com sucesso.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Hóquei à luz do... dia

Os jogos de pavilhão são dos mais famosos nos Estados Unidos. Se os jogos de basquetebol da NBA são todos cobertos, em arenas sumptuosas, os da NHL têm excepções, embora que muito raras. Aliás, a paixão pelo desporto coberto é tanta que alguns dos estádios de basebol (veja-se o exemplo do Tropicana Field, que pertence aos Tampa Bay Rays) ou futebol americano também não são afectados por condições atmosféricas.

Nos últimos dois anos, o primeiro dia da NHL ficou marcado por um jogo disputado ao ar livre. Em 2008, a 1 de Janeiro, os Buffalo Sabres e os Pittsburgh Penguins jogaram no Orchard Park, em Nova Iorque, com a vitória a sorrir aos Penguins por 2-1.

Ontem, foi a vez do Wrigley Field, uma das catedrais do basebol, receber uma partida do campeonato profissional de hóquei em gelo norte-americano. O chamado "Winter Classic" atraiu milhares de pessoas ao estádio dos Chicago Cubs (40 818 espectadores que ficaram longe do recorde de 71 217 da época anterior) e viu os Detroit Red Wings bater os Chicago Blackhawks por 6-4.

A iniciativa não é má, mas parece que o desporto está mesmo destinado a ser disputado no interior.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

A mística do Rose Bowl

Não é preciso ser muito velho, sendo europeu, para associar quase que directamente o termo "Rose Bowl" à final do Mundial de 1994, marcado pela grande penalidade falhada pelo italiano Roberto Baggio frente ao Brasil. Após um empate no final dos 120 minutos, o estádio de Pasadena, na Califórnia, assistiu ao quarto título mundial de um "Escrete" que tinha o Fenómeno Ronaldo no banco de suplentes e via na dupla Romário-Bebeto o expoente máximo.

Esta noite, graças às maravilhas do cabo (o canal NASN já está disponível não só na MEO como também na ZON), os portugueses vão poder assistir a outra "final" de Pasadena, também de futebol mas... americano.

O estádio de Rose Bowl dá nome a um jogo, também ele "Rose Bowl" e que é conhecido como "The Grandaddy of them all" ("O avôzinho deles todos"). A partida, de futebol americano universitário, tem data religiosamente marcada para 1 de Janeiro de cada ano, excepto se o primeiro dia do ano calha a um domingo.

Na estreia da prova, em 1902, a equipa de Michigan dominou a de Stanford com um triunfo de 39-0. A segunda edição realizou-se apenas em 1916 e desde então apenas por uma vez a tradição não se cumpriu. Em 1942, menos de um mês depois dos ataques a Pearl Harbor, os responsáveis decidiram transferir a partida para Duke, na Carolina do Norte, com receio dos perigos de um ataque na costa Ocidental dos Estados Unidos, especialmente num local com largos milhares de pessoas.

Anualmente, a Rose Bowl é disputada por um representante das conferências Big Ten (com equipas de estados do nordeste norte-americano) e Pacific-10 (costa ocidental norte-americana) e esta noite terá frente a frente as equipas de Penn State e Southern California.

A equipa de Southern California tem um grande peso na competição e lidera a lista de troféus com 23 triunfos em 33 aparições na final. Para se ter uma noção, a segunda classificada é a Universidade do Michigan com oito vitórias em 20 presenças. Mais modesta é a outra finalista de 2009: Penn State (uma vitória em três finais). Caso ganhe hoje, será o terceiro título consecutivo de Southern California.

Outro facto curioso é a lista de jogadores que já venceram o prémio de MVP da partida. Em 1968, precisamente numa das finais ganhas pela USC (University of Southern California), o prémio foi atribuído ao polémico OJ Simpson. Mais recentemente, em 2005 e 2006, o actual quarterback dos Tennessee Titans, Vince Young, conquistou o galardão.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Literalismos

Toda a gente já ouviu falar em hat-trick. Para alguns, é o simples acto de marcar três golos num jogo. Para outros é marcar três golos consecutivos num jogo. Outros há ainda que dizem que têm de ser alcançados todos nas mesma parte. Finalmente, os que afirmam que o verdadeiro hat-trick é aquele em que o jogador marca um com o pé direito, outro com o esquerdo e o outro com a cabeça.

Na verdade, existem inúmeras definições para hat-trick, mas nenhuma é tão literal como a que existe no hóquei em gelo norte-americano. Como a imagem em cima documenta, os adeptos levam a sério o termo e congratulam o jogador com a oferta de... chapéus.

A tradição começou em Guelph, Ontario, com os Biltmore Madhatters (que fazem parte dos NY Rangers). A explicação é simples. Biltmore Madhatters, o nome do principal patrocinador, é um fabricante de chapéus e decidiu que os jogadores que conseguissem um hat-trick teriam direito a um chapéu gratuito. A tradição pegou e, pouco depois, foi Sammy Taft a fazer o mesmo nos Toronto Maple Leafs. Não faltou muito até toda os adeptos começarem a fazê-lo.

Tempos houve que outros adeptos, como os dos Florida Panthers, decidiram inovar e atirar ratos de plástico (existe uma explicação e está relacionada com um jogador), mas a NHL interviu de pronto e proibiu ratos no gelo. Aliás... não foram apenas os ratos a serem proibidos, mas também todos os outros objectos... excepto os chapéus.

O último a fazê-lo, na NHL, foi o jogador dos Boston Bruins David Krejci, que na última quinta-feira apontou três golos no triunfo por 8-5 frente aos Toronto Maple Leafs. A imagem documenta que em Boston a tradição segue-se... à risca.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Ídolo de proximidade

Michael Schumacher, Pete Sampras, Roger Federer, Tiger Woods, Lance Armstrong, o "Dream Team" do Barcelona. Figuras que dominaram um período da história da modalidade em que se distinguiam e com isso atraíram a si milhões de fãs por todo o Mundo.

Eram exemplos de superação e modelos para miúdos e graúdos que torciam pelos sucessos como se do próprio clube se tratasse. No entanto, não eram amados por todos. Schumacher era considerado perigoso e arrogante, Sampras não tinha grande aceitação na Europa e Lance Armstrong ainda hoje é odiado pelos franceses.

Pegando neste último caso, coloca-se a pergunta "porquê?". Lance é realmente um exemplo único de superação e de domínio absoluto na Volta à França em bicicleta, mas nunca teve uma boa relação com a imprensa francesa. A personalidade característica dos franceses impede-os de idolatrar uma figura estrangeira, especialmente quando os ciclistas franceses não ganham qualquer prova de destaque há muitos anos.

É este carácter de proximidade que influencia muito o destaque e emoção dada a uma modalidade. Numa crónica da Sports Illustrated, a revista de desporto mais conceituada dos Estados Unidos, Bryan Armen Graham afirma: "Na nossa cultura, um desporto é muito pouco popular se o melhor não é um norte-americano. Durante os anos 90, quando Jim Courier, Pete Sampras e Andre Agassi dominavam o ranking ATP, o ténis foi capa da SI 18 vezes... desde 2000 apenas cinco. O futebol, que se mantém como o desporto mais popular do Mundo com anos-luz de vantagem, mantém-se uma modalidade de culto nos EUA porque a selecção nacional não tem argumentos para vencer um Mundial num futuro próximo. A máxima acaba por ser "se não somos os melhores, provavelmente não valerá a pena fazê-lo".

E por que diz Graham isto? Para analisar a situação que o boxe vive na terra das oportunidades. Longe do fulgor do passado, os Estados Unidos estão em queda e assistem quase que impávidos e desinteressados ao domínio do bloco oriental da Europa, que domina em todas as categorias. Já sem heróis, que outrora eram manchetes de jornais e denominados como os "grandes invencíveis" e campeões do Mundo, os EUA são agora um país sem esperança para destronar as figuras.

Talvez por isso, o ucraniano Wladimir Klitschko seja um rei sem trono. Campeão mundial de pesos pesados, o europeu não perde há mais de quatro anos. O saldo da carreira tem um impressionante registo de 52 vitórias e três derrotas, sendo que 46 triunfos foram alcançados por knockout.

No entanto, continua sem passar de um simples desconhecido, ignorado por muitos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Homem das alturas

Lembram-se de Ken Mint? O homem de 73 anos que joga basquetebol apesar da idade? Esqueçam a idade. É um jovem comparado com Fred Beckey, um alpinista de 85 anos que continua a desafiar as alturas e já traçou o novo objectivo: Norte de Espanha.

A história, como não podia deixar de ser, tem mais uma vez a chancela inconfundível do The New York Times. Para se ter uma noção da antiguidade de Beckey, poderá dizer-se que quando o Evereste foi escalado pela primeira vez, em 1953, já este alpinista de corpo e alma tinha 30 anos.

Apesar de não ter sido o primeira nos Himalaias, Beckey é o montanhista em actividade com mais topos virgens, ou seja, nunca ninguém subiu tantas montanhas pela primeira vez como ele. Este génio das rochas, neve e natureza tem uma modo de operação muito próprio. É considerado um homem frio, solitário e pouco dado a partilhar sabedoria. Ainda assim, não deixa de ser uma lenda viva para todos os verdadeiros apreciadores da modalidade.

Talvez por isso, a novidade da aventura ao Norte de Espanha tenha sido adiantada com grande ansiedade nos fóruns. "Pode ser uma possibilidade remota, mas está à procura de um companheiro", lia-se.

De origem alemã, de nome completo Wolfgang Paul Heinrich Beckey, este alipinista octogenário sofreu no passado pelo mau trato. De facto, em 1960, sete anos depois da primeira chegada ao Evereste, Beckey ficou de fora dos convites da primeira expedição americana. Várias gerações depois, os "miúdos" já o vêem de outra forma. Aos 28 anos, Dave Burdick considera que "Beckey já esteve em todo o lado e fez sempre coisas fantásticas".

Se antigamente fugiam dele e queriam distância, hoje fazem fila. Diane Kearns estará com Beckey em Espanha. Para ela, o importante não é tanto a subida, mas sim estar com o alpinista. "A oportunidade de o ver é tremenda. É uma lenda do seu tempo", reconhece.

Aos 85 anos, Beckey não dá sinais de se querer retirar nem de se limitar a escrever livros sobre elefantes, candidatar-se a presidenciais ou simplesmente inscrever-se em clubes de sueca. Continua fiel a uma vida repleta de marcas que se esforçou por alcançar e exactamente com as mesmas motivações.