sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Filhos de Figuras

Crescer na sombra de uma figura desportiva é uma tarefa complicada. Desde cedo surgem as comparações com o pai ou a mãe e a pressão aumenta. Estar ao mesmo nível tem-se revelado quase sempre uma tarefa hercúlea, mas a história traz alguns que conseguem pelo menos chegar a um bom estatuto.

Actualmente em Portugal, Miguel Veloso será o melhor exemplo. O pai, "apenas" Veloso, fez carreira no Benfica e na Selecção Nacional como lateral e somou títulos nacionais atrás de títulos nacionais. Internacionalmente, ficou conhecido por falhar uma penalidade decisiva numa final. Curiosamente, a última vez que ouvi falar dele, como treinador do Atlético da Malveira, foi precisamente numa final perdida, a da Taça de Lisboa, frente ao surpreendente Freiria. No passado, houve Rui Águas. Apesar de não ter conquistado os títulos internacionais do pai (José), Rui conseguiu construir uma carreira que afastou o rótulo de ser apenas "o filho do José".

Lá fora, as grandes figuras de sempre foram, e são, Pelé, Maradona, Di Stéfano, Cruyff, Eusébio, Platini e mais alguns. Desta lista, apenas os filhos do brasileiro e do holandês tiveram, ou têm, passagens pela modalidade. Se no caso de Pelé, o filho guarda-redes foi um flop que envergonhou o nome com sucessivas polémicas e ligações a droga, Jordi Cruyff conseguiu construir algum nome.

Nascido na Catalunha, Jordi cresceu na cantera barcelonista e estreou-se na equipa principal aos 20 anos. Longe de evidenciar o fulgor de Johan, Jordi marcou 11 golos em 45 partidas e após duas temporadas abandonou o clube, coincidindo com a saída do pai. O destino? Manchester.

No United, foi arrasado por lesões e apesar de ter estado numa das equipas mais ganhadoras da história, não conseguiu o sucesso pretendido e foi emprestado ao Celta de Vigo. Mais um insucesso e consequente final de contrato sem renovação. Nesta altura, quando se esperava que se apagasse definitivamente, Jordi chegou ao Alavés. Aí, fez parte da equipa que surpreendeu a Europa do futebol e obrigou o Liverpool ao prolongamento da final da Taça UEFA com o empate a quatro golos.

O destaque fê-lo regressar à Catalunha, ao Espanyol, mas mais uma vez fracassou. O final de carreira, aos 30 anos, adivinhava-se. E foi assim que ficou durante dois anos, apesar de treinar com a equipa B do Barcelona apenas para manter a forma. A questão é: o que faz Jordi neste momento? É companheiro de Mário Sérgio e Ricardo Fernandes nos ucranianos do Metalurg Donetsk.

Razoavelmente surpreendido? Há melhor. Não é colega de sector de Ricardo Fernandes no meio-campo ofensivo, mas sim de Mário Sérgio na defesa. Jordi é actualmente, aos 34 anos, defesa central.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Velhos são os trapos

Vamos falar de 73 anos e de desporto ao mesmo tempo. Se fosse nascido, Elvis Presley teria 73 anos, mas não é dele que se trata, até porque aquele jeito especial de tremer as pernas nunca esteve perto de ser ginástica artística. Possivelmente, trata-se de um qualquer treinador, de uma modalidade qualquer. Com uma breve pesquisa, descobre-se que o antigo internacional alemão Udo Lattek tem 73 anos e até já foi treinador, mas continua a não ser o visado.

Estamos a falar de um basquetebolista que continua a jogar, ou melhor, que recomeçou a jogar basquetebol ao nível dos liceus. A pessoa em questão, Ken Mint, é dada hoje a conhecer por uma reportagem do The New York Times. Esta é a história de um puro desportista que a certa altura da vida cansou-se de ser... velho.

Então, o atlético "idoso" enviou uma carta para várias liceus na proximidade de Knoxville, no Tennessee, a pedir por uma oportunidade. A verdade é: Mint tem 73 anos (72 quando escreveu). O que faria um técnico dar uma oportunidade a um base com essa idade? A reacção da esposa foi natural: "Comprendes que tens 72 anos? Achas que vais convencer alguém que não?"

Ainda assim, o técnico do liceu de Roane State, Randy Nesbit, deu-lhe uma oportunidade, mas principalmente devido à curiosidade da situação, de ver quem era aquele indivíduo que aos 72 anos continuava a considerar-se capaz de praticar desporto.

Como seria de esperar, as reacções dos treinadores adversários foram estranhas. Uns ameaçaram os jogadores de que iriam para casa a pé se ele marcasse algum ponto, enquanto outros fizeram questão de que o defesa que lhe permitisse marcar iria ser motivo de troça para sempre.

A verdade é que a 3 de Novembro, Mink marcou dois pontos. Após receber a bola, simulou o lançamento e acabou por sofrer falta. Da linha de lance livre, não perdeu a oportunidade e converteu ambos. E agora, qual será o próximo objectivo? "Chegar aos duplos dígitos". Contudo, desengane-se quem pense que é o objectivo para um jogo. Mink sabe das suas limitações e gostava de terminar a época com pelo menos 10 pontos.

O treinador sabe a razão para as más "exibições". "A produtividade dele tem baixado desde que cortou o bigode", ironiza. Apesar de admitir as brincadeiras, Mink sabe que tem o respeito dos colegas e tem sempre uma resposta na ponta da língua, já que faz questão de relembrá-los que conhece pessoas de altas instâncias. Na verdade, é apenas um ciclo vicioso, já que a resposta é inevitável: "Onde, no Paraíso?"

Quando não estão nos treinos, alguns jogadores, os mais jovens, organizam festas. Mink é convidado, mas a esposa não dá permissão. Nesbit compreende a decisão. "Se começa a ir pelos maus caminhos é sempre a descer", volta a ironizar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Homens de armas

Filme dos muitos que costumam passar no canal Hollywood. Um wide-receiver desconhecido recebe uma bola e, quando estava prestes a ser placado, tira uma arma do equipamento e mata o adversário. Após conseguir o touchdown suicida-se.

A questão é... serão os jogadores de futebol americano assim? Os últimos meses parecem garantir que sim. Na verdade, quando comparados com os atletas de outras modalidades profissionais norte-americanas, como a NBA, MLB e a NHL, são considerados mais problemáticos, muito por culpa de serem oriundos de meios sociais também eles mais problemáticos e perigosos.

Plaxico Burress, autor da recepção mais espantosa dos últimos anos na SuperBowl (nos Giants frente aos Patriots em Fevereiro deste ano), foi o último a entrar nesta lista. A versão oficial afirma que o jogador atingiu acidentalmente a coxa direita num espaço de diversão nocturna. A história tem muito de bizarro, mas também de estranha.

A verdade é que os ferimentos foram apenas ligeiros e dias depois Burress já se movimentava sem apoios. O pior ainda estava para vir. Os Giants não acharam piada à história e suspenderam-no, garantindo que não voltaria a jogar até ao final desta época, mas é a polícia quem maiores dores de cabeça dará a Plaxico.

O "Giant" é agora acusado de dois crimes de posse de arma ilegal e arrisca uma prisão superior a três anos. Tal como o The New York Times afirma, Burress tem umas mãos que valem 35 milhões de dólares, mas um cérebro de cinco cêntimos.

Em Setembro, foi Richard Collier a ter o destaque da imprensa. O jogador dos Jacksonville Jaguars foi atingido por 14 vezes por Tyrone Hartsfield, sujeito com quem tinha tido uma altercação num bar em Abril. Como consequência, Collier ficou paraplégico da cintura para baixo e teve de amputar a perna esquerda do joelho para baixo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Uma visão privilegiada do futuro?

A ideia do laboratório Atlas Sports Genetics (ASG) é simples. Defende que é possível fazer um teste às crianças por 149 dólares (118 euros) para determinar a presença de um gene específico
(ACTN3) que influencia a propensão atlética.

A sua composição permitirá saber se a criança está mais habilitada para desportos de velocidade ou de resistência. No entanto, esta inovação não é consensual. O director do centro médico da Universidade de Califórnia-San Diego, Theodore Friedmann, garante que o teste “não é assim tão claro” e que deveria ser estudado melhor antes de se tornar público.

Stephen M. Roth, da Universidade de Maryland, vai ainda mais longe e diz que a análise de um único gene é demasiado redutora, visto que a performance atlética pode ser influenciada por, no mínimo, 200 genes.

O presidente da ASG, Kevin Reilly, confessa que já esperava algumas dificuldades na recepção da novidade, em declarações ao NewYork Times. Segundo o responsável, algumas pessoas temiam que o teste provocasse “um renascimento do eugenismo, semelhante à tentativa de Hitler de criar uma raça perfeita”.

Ainda assim, Kevin Reilly opta por destacar as vantagens do sistema: “É um método de ajuda para as crianças poderem realizar os seus potenciais e não perderem tempo em outras actividades.”

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Jordan das "meias brancas"

Não, não se trata de um texto humorístico para analisar as tendências da moda de um dos melhores jogadores da história da NBA. Não se trata da famosa meia branca com o desenho da raquete. Meia branca, ou meias, até há, mas em vez da raquete, está um taco... de basebol.

Michael Jordan é um nome que dispensa apresentações. É considerado como um dos maiores atletas de sempre e no basquetebol conquistou tudo o que havia para ganhar. Quando se fala em MJ, será difícil não se associar imediatamente a Chicago, mais propriamente aos Chicago Bulls. Mas na verdade, quantos são aqueles que são capazes de o associar aos Chicago White Sox (da MLB)?

Na verdade, são precisamente os Chicago White Sox, e a sua ligação a Jordan, que são capazes de explicar o facto dos Houston Rockets terem ganhos dois campeonatos na década de 90. É que em 1993, após ter sido campeão pela terceira vez com os Bulls, Jordan decidiu enveredar pelo basebol, cumprindo assim um sonho que o seu pai tinha alimentado desde que Michael nascera.

Aproveitando as ligações entre os proprietários das duas equipas, MJ assinou um contrato com os White Sox. A decisão foi tomada precisamente no ano em que o pai, James Jordan, foi assassinado numa auto-estrada na Carolina do Norte. Acima de tudo, o astro do basquetebol quis honrar o pai.

Nos White Sox, Jordan estreou-se num jogo de exibição frente aos Chicago Cubs, onde chegou a surpreender ao ter três hits nas cinco vezes que foi chamado a bater. Ainda assim, o contrato era para uma equipa das ligas secundárias com ligação aos White Sox: os Birmingham Barons.

Jogando como outfielder, Jordan registou uma média de .202, com 3 home runs, 51 RBI e 30 bases roubadas, o quinto melhor registo da Liga. Sem ter o sucesso natural que teve nos Bulls, Jordan era visto com algum desdém pelos outros jogadores de basebol. Uma vez, um chegou mesmo a afirmar que Jordan não seria capaz de acertar numa bola curva, mesmo que tivesse munido com uma tábua de engomar.

Por outro lado, MJ não se pode queixar de não ter treinador, já que o responsável pelos Barons era... Terry Francona, o actual técnico dos Boston Red Sox, bicampeão da World Series e que quebrou o jejum da equipa de Massaschusetts de 86 anos sem vencer. Sobre Jordan na altura... Francona queixava-se que transformava a equipa num circo devido à perseguição dos jornalistas.

Satisfeito com a incursão no basebol, Michael Jordan convocou uma conferência de imprensa, mas limitou-se a dizer uma frase: "I'm back". O resto toda a gente sabe. Mais três títulos de campeões, dois de MVP da Liga e três de MVP da final.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Política desportiva

O que têm em comum Fidel Castro, Barack Obama, Vladimir Putin, José Sócrates, George W. Bush, Evo Morales e Hu Jintao além da política? Na verdade, todos eles demonstraram no passado, ou continuam a demonstrar, atracção pelo desporto.

Em Portugal, o primeiro-ministro José Sócrates é conhecido pelos hábitos de corrida, que o levaram inclusivamente a percorrer a Praça Vermelha, em Moscovo, sob forte escolta policial. Ainda assim, Sócrates confirma apenas uma tendência clara.

Fidel Castro, o antigo Presidente cubano, notabilizou-se no desporto durante a vida estudantil, chegando mesmo a ser galardoado com o prémio de melhor atleta do liceu e, aos 21 anos, foi o lançador da equipa de basebol.

Do outro lado do Mundo, o Presidente chinês Hu Jintao demonstrou na promoção dos Jogos Olímpicos de Pequim as capacidades, quase que inatas no país, para praticar ténis de mesa.

União. Os ideais políticos opostos são esquecidos quando se entra em campo. Neste sentido, um comentador de futebol zambiano, Dennis Liwewe, afirma no documentário “Lusaka Sunrise” de Silas Hagerty, que “não é fácil juntar 73 tribos diferentes que falam literalmente 73 dialectos diferentes num só grupo e o futebol desempenha um papel fundamental para garantir esta união”.

A ideia de Liwewe é confirmada internacionalmente. O desporto não é comum a apenas uma facção política, mas tem o condão de reunir várias. Nos Estados Unidos, o antigo e o actual Presidente representam partidos distintos, mas unem-se através do desporto. No passado, o republicano Bush teve um papel activo na gestão da equipa de basebol Texas Rangers, enquanto o democrata Barack Obama é um assíduo praticante de basquetebol.

Já Vladimir Putin, actual primeiro-ministro russo, ostenta no currículo o título de campeão de São Petersburgo no judo, sendo actualmente o presidente do clube onde aprendeu a modalidade enquanto jovem.

Futebol. Na política existe também quem gostasse de seguir as pisadas de Cristiano Ronaldo. Nestas quatro linhas, destaque para o Presidente boliviano Evo Morales, que aos 47 anos continua a jogar e recentemente teve papel activo na luta contra a FIFA para demonstrar que não há riscos de jogar em altitude.

A história tem também casos de atletas que tentam enveredar pela política, mas o sem sucesso. Em 2005, George Weah perdeu a corrida para as eleições presidenciais da Libéria.

Mais a sério. O actual líder da monarquia espanhola, o rei Don Juan Carlos, competiu na classe Dragão, em vela,mas ficou fora dos lugares de medalha. Anders Fogh Rasmussen, primeiro-ministro dinamarquês, já subiu o AlpeD’Huez na companhia do antigo ciclista Bjarne Riis.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Datas... de nascimento e não só

Hoje é 1 de Dezembro de 2008. Um dos destaques deste dia é, sem margem para discussão, o facto de marcar a Restauração de Independência portuguesa face aos espanhóis em 1640, mas é também o aniversário de um dos clubes de futebol português mais antigos: a Sociedade União 1.º de Dezembro, de Sintra, que foi fundado em 1880.

O 1.º de Dezembro é um clube invulgar pelo nome, pelo facto de remeter para uma data histórica. O maior exemplo será a Naval 1.º de Maio, que marca presença no principal escalão de futebol, mas a verdade é que os figueirenses não são conhecidos por 1.º de Maio. No entanto, do outro lado do oceano, existe um país onde as datas de baptismo nos clubes são quase como uma tradição.

Deixemos Portugal por uns minutos e aterremos no Paraguai. Num campeonato principal com apenas 12 equipas, três delas são reconhecidas por uma data. Verdade seja dita. Se antes destas linhas que lê lhe perguntassem o que significa 12 de Outubro, 2 de Maio e 3 de Fevereiro, o que diria? Acredito que "clube do Paraguai" seria a última a resposta a passar-lhe pela cabeça.

A partir do momento em que se sabe a resposta, será mais fácil tentar descobrir que todas estas datas não significam apenas a data em que o clube foi fundado, mas também que representam uma marca na história paraguaia. Aconselho, então, a irmos caso a caso, respeitando a classificação actual.

O 12 de Outubro é o melhor classificado dos três e ocupa actualmente a oitava posição. De certa forma, esta é já uma evidência de que são clubes com pouca afirmação, comparativamente a outros como Olimpia, Libertad e Cerro Porteño. Mas voltemos ao objectivo. Por que se chama 12 de Outubro ao 12 de Outubro? Será importante começar por dizer que o 12 de Outubro foi fundado a... 14 de Agosto. Antes, em 1811, foi neste dia que o governo de Buenos Aires (Argentina) assinou o Tratado de Amizade, Auxílio e Comércio que reconhecia como independente a província do Paraguai.

Para a frente no texto, para trás nas datas. Chegámos a 3 de Fevereiro, o antepenúltimo da classificação a uma jornada do fim. Facto a reter: o 3 de Fevereiro foi fundado a... 20 de Novembro de 1970. Criado por vários habitantes da Ciudad del Este, o 3 de Fevereiro honra a data em que a cidade foi fundada, 13 anos antes. Curiosamente, a data tem ainda um significado premonitório, já que foi nesse dia, mas em 1989 que se realizou o golpe de Estado contra o ditador Alfredo Stroessner.

Finalmente, o 2 de Maio, penúltimo da classificação. Para não variar, em todo este esquema de facilitar as datas, o 2 de Maio foi fundado a... 6 de Dezembro. Neste caso, o 2 de Maio não significa uma data em si, já que foi criado por ex-combatentes paraguaios na Guerra del Chaco, que eram membros do Regimento da Infantaria 2 de Maio.

Nós por cá, os portugueses, até preferimos facilitar as coisas, apesar de toda a fama. É que o 1º de Dezembro foi fundado a 1 de Dezembro e a Naval 1.º de Maio também foi criada a 1 de Maio. Enfim, portuguesices.